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Eu faço trilha

Eu faço trilha para Ouvir o barulho das árvores ao vento Sentir o cheiro da natureza Ver belezas de outras eras   Eu faço trilha para Ativar os meus pulmões Fortalecer as minhas pernas Superar os meus limites   Eu faço trilha para Me livrar das impurezas Renovar o meu suor Conhecer pessoas legais   Eu faço trilha para Enfiar o pé na lama Andar calçado dentro d’água Pisar onde ninguém pisou   Eu faço trilha para Sentir a força das águas Deixar a correnteza me levar Ver arco-íris ao meu redor   Eu faço trilha para Ver bichinhos no topo do mundo Apreciar a minha pequenez Abrir o meu espírito

Cursor frenético

Um vazio se apossou da minha mente. Eu não conseguia escrever nenhuma palavra que valesse a pena; nenhuma me satisfazia, nenhuma era boa o suficiente. Fiquei com a sensação de que as coisas só voltariam a acontecer se eu escrevesse algo, como se a minha vida dependesse disso. A última linha que eu tinha escrito estava ali: reticente, imóvel, curiosa, esperando pela próxima, embora as palavras já não fossem mais minhas amigas. Aquela repentina falta de criatividade me deixou estático. Só os meus olhos se mexiam, indo de um lado para o outro da tela. Minha atenção voltou-se ao cursor, que piscava no final da linha. De repente, ele tinha se tornado o meu algoz, denunciando insistentemente a minha falta de imaginação. Eu podia rolar a página para cima tentando escondê-lo lá embaixo, fora das minhas vistas, podia minimizar a tela, ou até mesmo fechar o arquivo, mas eu sabia que ele continuava piscando latentemente, mesmo que invisível, em algum lugar daquele mar de impulsos magnéticos. Pisc...

Percentual de beleza

Perguntei pra minha filha se eu era bonito. Ela disse que eu era 60% bonito e 40% feio. Então fomos brincar por um tempinho. No final, perguntei de novo. E ela disse que agora eu era 70% bonito e 30% feio. Acho que tenho que brincar com mais gente.

Na sorveteria

– Que sabor você quer, filha? – Quero provar aquele vermelho. – Moça, pode dar uma prova de Red Velvet pra ela? Depois que a atendente serviu, a menina pegou a colherinha entusiasmada e lambeu com gosto. – Vou querer esse! – Então vamos pedir um médio de três sabores e a gente divide, tá bom? – Tá! – Vou querer Chocolate Marroquino, pode ser? – Pode. – E escolhemos o terceiro sabor juntos. – Pode escolher, pai. Eu quero mesmo é aquele vermelho. – Então vou colocar mais um de chocolate. Esse Kinder Bueno, você gosta? – Gosto, pede logo! – Moço, é um médio, no crédito. – Pode aproximar o cartão. – Pronto. – Moça, Red Velvet, Chocolate Marroquino e Kinder Bueno, no copinho. Enquanto a atendente preparava o sorvete, me sentei no banco acolchoado que ia de ponta a ponta da parede na pequena sorveteria de esquina. Vi uma mãe com a filha escolhendo os sorvetes delas. A mãe era bonita. A filha dela era um pouco menor que a minha. A mãe pegou o primeiro sorvete e, por acaso, se sentou perto de ...

Em casa

Estar em casa é Andar descalço Assistir a um filme até tarde Não ter hora pra acordar Estar em casa é Ligar pros amigos Receber beijos e abraços Cuidar um do outro Estar em casa é Ficar só de cueca Ler um livro na rede Sair pelado do banheiro Estar em casa é Falar besteira sem receio Rir das próprias ideias Ser livre para pensar Estar em casa é Ficar contigo ao meu lado Andar de mãos dadas Estar apaixonado 

O misantropo

– Mãe, descobri o que sou! – disse o menino de 12 anos, só com a cabeça para fora da porta do quarto, com um grito no corredor. A mãe coruja parou tudo que estava fazendo e foi ver o que o filho queria, já cheia de coisas na cachola. Algumas hipóteses cruzaram a sua mente preocupada: “Será que vai sair do armário?”, “Será que desta vez se autodiagnosticou como autista?”, “Estará falando de alguma profissão que quer exercer no futuro?”.  – Oi, meu amor! Me chamou? – Mãe, eu sou misantropo! – disse ele, confiante. – Como assim, meu filho? – perguntou ela, tentando esconder que não sabia ao certo o significado daquela palavra. – É isso mesmo, mãe. Mas não se preocupe, está tudo bem comigo. Eu não me incomodo com isso. Pra falar a verdade, até gosto de ser assim. – Tá bom, meu amor. Vai ficar tudo bem, então. Se quiser conversar mais sobre o assunto, sabe que pode sempre contar comigo – concluiu a mãe, já apressada para ir em busca de um dicionário. O menino fechou a porta do quarto e ...

A barata

Querido, mata aquela barata! Querido? Cadê você? Sai do banheiro, amor! O que você tá fazendo aí? A barata não tá aí. Ela tá lá na sala. Agora nem sei mais. Pode ter ido pra cozinha. Vai rápido, senão ela se esconde! Sai daí! Deixa de ser medroso. Não é medo, é nojo, certo. Não, não é uma barata cascuda. Que exagero, ela não é tão grande assim. Não, também não é voadora. Pode ficar tranquilo. Como é que eu sei? Eu a vi. E ela não voou. Sim, eu sei que ela podia estar só parada descansando. Mas eu conheço uma barata voadora quando vejo uma. Tenho certeza que ela não é voadora. Eu juro. Eu juro pela minha vida. Tá bom, eu juro por Deus. De que tipo ela é? É daquelas pequenas. Isso mesmo, uma francesinha. Pois é, tá vendo? Não tem com o que se preocupar. Agora abre essa porta, querido. Se você demorar muito ela vai fugir e a gente não vai mais saber onde ela tá. Vai ser pior, hein! Não, não, espera, não é isso. Eu não queria te assustar. Calma! Tudo bem, vamos revisar tudo. Na sala, ela e...