Na sorveteria
– Quero provar aquele vermelho.
– Moça, pode dar uma prova de Red Velvet pra ela?
Depois que a atendente serviu, a menina pegou a colherinha entusiasmada e lambeu com gosto.
– Então vamos pedir um médio de três sabores e a gente divide, tá bom?
– Tá!
– Vou querer Chocolate Marroquino, pode ser?
– Pode.
– E escolhemos o terceiro sabor juntos.
– Pode escolher, pai. Eu quero mesmo é aquele vermelho.
– Então vou colocar mais um de chocolate. Esse Kinder Bueno, você gosta?
– Gosto, pede logo!
– Moço, é um médio, no crédito.
– Pode aproximar o cartão.
– Pronto.
Enquanto a atendente preparava o sorvete, me sentei no banco acolchoado que ia de ponta a ponta da parede na pequena sorveteria de esquina. Vi uma mãe com a filha escolhendo os sorvetes delas. A mãe era bonita. A filha dela era um pouco menor que a minha. A mãe pegou o primeiro sorvete e, por acaso, se sentou perto de mim. A filha dela aguardava o outro sorvete junto ao balcão.
– É que o vermelho tá embaixo. Vamos comer os chocolates primeiros e você vai ver.
E começamos a comer, cada um com sua colherinha.
– Quero. A gente devia ter pedido só um pra dividir.
As crianças estavam de pé lado a lado, separando os respectivos pai e mãe sentados.
– Foi – disse a mulher, simpática – e agora parece muito pra nós duas.
– Quantos anos ela tem?
– Cinco.
– A minha tem oito. Mas, na verdade, são duas, a outra ficou em casa, não quis vir. São gêmeas.
– Ah, que legal. Deve ser um desafio ter duas na mesma idade. Acho que no começo é mais complicado, e depois deve ficar mais fácil.
– É, realmente tem seus prós e contras.
– Eu tenho outra de onze anos.
– Então ficamos empatados. Onze mais cinco, dezesseis. Oito mais oito, dezesseis.
– É mesmo! – ela sorriu, e depois continuou – Dizem que as escolas orientam para colocar gêmeos em salas separadas.
– Pois é, até tentamos, mas não deu muito certo. No ano passado, ela foi pra manhã e a outra continuou de tarde, mas era difícil acordá-la, e também a logística de ir ao colégio várias vezes por dia complicava as coisas.
– Não tinha outra turma no mesmo turno?
– Não. De tarde só tem uma turma.
– Ah, sim.
– E elas sempre estudaram juntas, e são difíceis de acordar de manhã, então essa tentativa só durou dois meses.
Enquanto a conversa se desenrolava, eu e minha filha escavávamos a primeira camada dos chocolates. E a menina interrompeu o fluxo de pensamentos.
– Que bom, filha, eu gosto mais do marroquino; daqui a pouco chegamos no vermelho.
– Já dá pra ver um pouquinho, olha! – disse ela, empolgada.
– Continua comendo.
A mãe e a filha, por sua vez, continuavam revezando os seus sorvetes de casquinha. A menina era mais calada, concentrando-se nas lambidas. Percebi que a mãe usava aliança. Era casada. Passei o meu polegar esquerdo por baixo da palma da mão até alcançar o dedo anelar, só pra confirmar que eu estava mesmo separado. Agora eu prestava atenção nos dedos do povo, um costume novo pra mim.
– No Antares.
– As minhas estudam na Tia Léa.
– A mais velha está no Santa Cecília.
– Talvez as minhas vão pra lá daqui a uns anos.
– Pai – minha filha interrompeu novamente – chegamos no vermelho, mas ainda tem um pouquinho de chocolate pra ti.
– Então eu como desse lado e você come do outro.
– Combinado – e ela continuou escavando o copinho.
“Vocês vêm sempre aqui?”, “Moram por perto?”, “Como se chamam?”, pensei em algumas perguntas, mas acabei não as fazendo. Até que eram cabíveis. Nada de mais. A mãe estava sendo super simpática, conversando numa boa. Cada um de nós com sua filha. Que mal haveria naquilo? Nenhum. Talvez tenha sido só falta de costume mesmo. Eu bem que devia ter puxado mais assunto. Mas tinha duas crianças no nosso meio, cada uma chamando a atenção para si de tempos em tempos com seus sorvetes.
Desastrada com suas mãos pequenas, a filha dela começou a pingar o sorvete na roupa das duas e no chão. Agora mãe e filha tinham pingos se espalhando copiosamente ao seu redor. A mãe tratou logo de pegar uns guardanapos e tentar limpar as gotas mais rápido do que caíam. De certa forma, conseguiu conter o vazamento. Ainda sobraram uns pingos nas pernas dela abaixo do shortinho. Belas pernas.
– Filha, vamos comer o restinho lá fora, pra não sujar mais aqui dentro.
A mãe se levantou e foi guiando a filha.
– Até mais! – retribuí.
Elas se sentaram nuns banquinhos na calçada, no ambiente externo da sorveteria. Ainda fiquei lá dentro com a minha filha, pois estávamos terminando o nosso copinho.
– Não, pode comer.
– Come, pai, eu sei que você quer.
– Ainda tem duas colheradas, pego uma e você outra.
– Tá.
– Pronto, agora deixa eu jogar aqui no lixo. Vai ali no banheiro lavar as mãos.
Abri a porta pra ela, e foi direto à pia se lavar. Estava um pouco lambuzada. Fiquei observando pela porta de vidro da sorveteria se a mãe e filha ainda estavam lá. Estavam.
– Vamos. Gostou?
– Gostei.
Saímos da sorveteria, cruzamos por elas lá na parte externa.
– Até mais! – a mãe respondeu, virando-se para olhar para nós.
Dei um último olhar. Um último sorriso.
Peguei minha filha pela mão e atravessamos a rua em direção à pracinha. Caminhamos em direção ao carro.
– Sei lá, pai.
– Elas são bem parecidas. Não acha?
– É mesmo.
– Acho que vou voltar lá e perguntar o telefone dela – eu disse só para ver a reação.
– Tá querendo namorar ela é?
– Ela é casada.
– Como é que tu sabe?
– Tinha aliança.
– Se ela não tivesse, dava certo, pai, agora que tu tá solteiro.
Fiquei pensando nas possibilidades, enquanto entrávamos no carro e tomávamos o caminho de casa.
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