A barata

Querido, mata aquela barata! Querido? Cadê você? Sai do banheiro, amor! O que você tá fazendo aí? A barata não tá aí. Ela tá lá na sala. Agora nem sei mais. Pode ter ido pra cozinha. Vai rápido, senão ela se esconde! Sai daí! Deixa de ser medroso. Não é medo, é nojo, certo. Não, não é uma barata cascuda. Que exagero, ela não é tão grande assim. Não, também não é voadora. Pode ficar tranquilo. Como é que eu sei? Eu a vi. E ela não voou. Sim, eu sei que ela podia estar só parada descansando. Mas eu conheço uma barata voadora quando vejo uma. Tenho certeza que ela não é voadora. Eu juro. Eu juro pela minha vida. Tá bom, eu juro por Deus. De que tipo ela é? É daquelas pequenas. Isso mesmo, uma francesinha. Pois é, tá vendo? Não tem com o que se preocupar. Agora abre essa porta, querido. Se você demorar muito ela vai fugir e a gente não vai mais saber onde ela tá. Vai ser pior, hein! Não, não, espera, não é isso. Eu não queria te assustar. Calma! Tudo bem, vamos revisar tudo. Na sala, ela estava na sala. E já sabemos que é uma francesinha. Você fala francês, não fala? Então? Fala francês com ela e pede pra ela ir embora. Não precisa nem chegar perto dela. Ô, querido, não fica chateado, eu estava brincando, pra descontrair um pouco. Tá bom, eu sei que é um assunto sério, então vamos falar sério. Na verdade, eu acho que não é nem uma barata adulta. Ela é tão pequena, mas tão pequena, que provavelmente é um filhote. Você não vai ter medo de um filhote de barata, vai? Como assim, muitos? Não, era só um mesmo. Tô entendendo, se era um filhote, deve ter outros filhotes. É isso que você quer dizer? Querido? Tá me escutando? Calma, calma, respira, respira. Conta até dez e se acalma. Um, dois, três. Respira fundo. Quatro, cinco, seis. Melhorou? É só uma barata, uma barata filhote. Não tem outras, pode confiar em mim. Agora abre essa porta e vamos resolver este assunto. Olha, vamos fazer o seguinte, se você não quiser, não precisa nem matar a barata. Tem veneno ali no armário. É só colocar nos cantos das paredes e embaixo dos móveis, em pontos estratégicos, sabe. Ela vai comer e morrer sozinha. Ninguém precisa matá-la. Pronto! O que acha dessa ideia? Chamar uma equipe de dedetização? Não, não é necessário. É só uma única barata. Não, querido, não vou ir pra um hotel só pra esperar uma barata morrer com o veneno. Não há necessidade. Nós vamos ficar aqui em casa mesmo. Olha, vamos resolver logo isso. Já estou ficando cansada. Ai! Querido, eu tô vendo ela. Ela tá vindo pra cá. Vou subir na cama. Ela tá indo pro banheiro onde você tá. Ela vai passar por debaixo da porta. Ela vai entrar aí. Cuidado! Querido, volta aqui! Não vai embora! Não me deixa aqui sozinha com a barata.

Alô? Querido? Você tá onde? Volta pra casa, amor! Eu já matei a barata. Quer ver? Vou te mandar a foto da barata morta pelo WhatsApp, pode ser? Mandei. Viu? Claro que sim, essa é a barata que eu matei. Você acha que vou ficar pegando foto de barata morta na Internet? Me poupe! Tá bom, vou tirar uma foto segurando o jornal de hoje e com a barata do lado. Pronto, mandei. Satisfeito? Ela tá morta. Sim, 100% morta. Eu tenho certeza absoluta. Esmaguei ela com a chinela e depois borrifei veneno no cadáver, só pra garantir. Não, ela não tá se mexendo. Não, ela não vai ressuscitar. Pode falar, tô anotando. Ok, vou colocar ela num saco plástico, amarrar a boca do saco, jogar no lixo, e colocar o lixo fora de casa. Espera aí na linha. Pronto, já fiz tudo do jeito que você pediu. Agora volta pra casa, amorzinho, que eu não gosto de ficar sozinha. Tá ficando tarde e eu tenho medo do escuro.

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