Cursor frenético

Um vazio se apossou da minha mente. Eu não conseguia escrever nenhuma palavra que valesse a pena; nenhuma me satisfazia, nenhuma era boa o suficiente. Fiquei com a sensação de que as coisas só voltariam a acontecer se eu escrevesse algo, como se a minha vida dependesse disso. A última linha que eu tinha escrito estava ali: reticente, imóvel, curiosa, esperando pela próxima, embora as palavras já não fossem mais minhas amigas. Aquela repentina falta de criatividade me deixou estático. Só os meus olhos se mexiam, indo de um lado para o outro da tela.

Minha atenção voltou-se ao cursor, que piscava no final da linha. De repente, ele tinha se tornado o meu algoz, denunciando insistentemente a minha falta de imaginação. Eu podia rolar a página para cima tentando escondê-lo lá embaixo, fora das minhas vistas, podia minimizar a tela, ou até mesmo fechar o arquivo, mas eu sabia que ele continuava piscando latentemente, mesmo que invisível, em algum lugar daquele mar de impulsos magnéticos. Piscava por entre os chips da memória do meu computador. Piscava também na minha própria memória, na minha imaginação. Eu não conseguia pensar em nada para escrever, mas conseguia imaginar um cursor invisível que teimava em continuar latejando.

A insistência mecânica daquele elemento computacional começou a me atordoar mais do que qualquer outra coisa. A sua atitude era, de certa forma, intimidadora. Será que isso já tinha acontecido com mais alguém? Ou seria eu a primeira vítima de um cursor sádico? E o que era aquela coisa, afinal de contas? Nem sei se podia ser chamado de caractere, ou mesmo de símbolo. Uma barra vertical intermitente. De quem foi a ideia? Acho que nunca dá para saber de quem é a ideia dessas coisinhas que populam a nossa vida. É o tipo de conhecimento que se perde no tempo.

Esse cursor é uma coisa tão inconstante: está lá, não está, está, não está. Por que não se decide logo de uma vez por todas? Será que a sua ausência temporária faz parte da sua existência? Ou será que ele deixa de existir, só para depois renascer no mesmo lugar? Aparece e desaparece com uma regularidade invejável. Aonde vai quando desaparece? Será que vai para outra tela perturbar outra pessoa? Pode ser que fique pulando de tela em tela, de computador em computador pelo mundo afora, fingindo ser um duende brincalhão, querendo pôr à prova a paciência dos humanos. Contudo, suspeito que haja mais cursores espalhados por aí. Esse não deve ser o único. Bem que eu queria um cursor mais bem comportado, mais calmo, menos frenético. Talvez seja por isso que algumas pessoas preferem a máquina de escrever, não pelo saudosismo, ou por gostarem de ouvir aquele ruído de martelinhos de chumbo tamborilando num cilindro de borracha, mas simplesmente por serem deixadas em paz.

Resolvi ligar para a assistência técnica na busca de uma solução.

– Bom dia, em que posso ajudá-lo?
– É que estou com um problema no meu computador.
– Que tipo de problema, senhor?
– É o meu cursor que não para de piscar.
– Acho que não entendi bem, senhor, o seu cursor?
– Sim, o meu cursor, aquele negocinho que fica piscando na tela do computador.
– Hum, talvez seja um problema com o seu mouse. Aqui temos mouses excelentes, de última geração. Se o senhor quiser dar uma passada por aqui para dar uma olhada...
– Não, o meu mouse está ótimo.
– Mas o senhor acabou de dizer que fica piscando.
– O cursor que pisca é o outro, o do mouse está ótimo, não pisca.
– Não estou entendendo muito bem. O senhor está me dizendo que tem dois cursores na sua tela?
– Bem, eu nem tinha percebido, mas agora que você mencionou, vejo que sim, tem dois cursores, mas o do mouse está ótimo, o problema é o outro.
– O outro? Que outro?
– O que está piscando, ora.
– Desculpe-me, senhor, mas que outro cursor é esse?
– É o do texto que estou escrevendo, aquele que fica no final da linha, sabe.
– Ah, entendo. Mas, senhor, acho que esse cursor é assim mesmo, o normal é que pisque continuamente para indicar a posição em que está.
– Mas está me incomodando, e muito! Quero que ele pare de piscar. Será que vocês poderiam dar um jeito nisso?
– Hum, não tenho certeza. Nunca ouvi falar em fazer um cursor parar de piscar. Não sei se oferecemos este serviço aqui.
– Informe-se, ora. Fale com o seu superior.
– Um minuto, por favor.

O atendente deixou o telefone e se esqueceu de colocar a musiquinha, pois continuei ouvindo o que falava com o colega do lado.

– Tem um cara aqui reclamando de um cursor. Diz que está piscando e ele quer que pare de piscar.
– Pare de piscar? Diga para ele comprar um mouse novo.
– Não é o cursor do mouse, mas o do texto.
– Ah, sobre isso não sei responder. Tem que perguntar pros técnicos.

O atendente voltou ao telefone.

– Senhor, o setor técnico é responsável por resolver este problema. Vou transferir a ligação.

A musiquinha começou a tocar. Três minutos depois, alguém atendeu.

– Setor técnico, em que posso ajudá-lo?
– É o seguinte, tem um cursor na minha tela que não para de piscar, isso está me incomodando bastante. Como faço para consertá-lo?
– Senhor, não é comum que o cursor do mouse fique piscando, temos que...
– Não é o cursor do mouse, eu já disse ao outro atendente, é o do texto que eu estava escrevendo, o cursor do editor de texto, entende?
– Ah, certo... Quanto a isso, infelizmente não podemos fazer nada, senhor. Já vem assim de fábrica, portanto não temos como alterar este comportamento.
– Está querendo me dizer que não se pode fazer nada para mudar isso?
– Sinto muito, senhor, mas os editores de texto são assim mesmo.
– Sei lá, não dá para desabilitar o cursor ou algo parecido?
– Hã... que eu saiba não, senhor.
– Que você saiba não, mas e que outra pessoa saiba, será que não?
– Senhor, entenda, esta funcionalidade serve para ajudar quem está escrevendo, para indicar a posição em que parou.
– Escute bem, rapaz, no meu caso, não está me ajudando em nada. Muito pelo contrário, está tirando a minha atenção, está me atrapalhando. E eu sei muito bem onde parei o texto, não preciso que um cursor maluco fique me lembrando disso o tempo todo.
– Sinto muito, senhor, mas...
– Mas nada, vocês são uns incompetentes. Vocês deveriam ter uma solução para isso. Ora, imagino que várias pessoas já devam ter reclamado do mesmo problema.
– Que eu me lembre, não. Tenho certeza que o senhor deve ser o primeiro a estar reclamando disso.
– Está brincando com a minha cara, rapaz?
– Claro que não, senhor, peço desculpas se houve um mal-entendido.
– Vocês não perdem por esperar! Vou denunciá-los para a defesa do consumidor. Anote o que estou dizendo!
– Realmente, senhor, não há nada que possamos fazer neste caso. Tem outra coisa em que eu possa ajudá-lo?
– Não! Passar bem!
– A assistência técnica agradece o seu... (tututu...)

Desliguei o telefone na cara dele, de tanta raiva que eu estava sentindo. Agora tinha voltado à estaca zero, refém do meu próprio cursor. E agora fiquei sabendo que eram dois deles. Pelo menos o outro não piscava. O cursor do mouse nunca tinha me incomodado, pois seguia as minhas ordens obedientemente: para cima, para baixo, esquerda, direita, parado; mas o outro não, aquele teimoso era independente demais para mim. Eu não conseguia controlá-lo; ele tinha vida própria. Resolvi que não iria mais pedir a ajuda de ninguém. E se me falassem de mais outro? Um terceiro cursor, eu não aguentaria, isso já seria um complô contra o meu fluxo criativo. Eu estava começando a perceber que, às vezes, até as coisas mais ridículas podiam levar a uma situação dramática.

Voltei para a frente do computador e tentei me acalmar. Fechei o arquivo e o abri de novo. Para algumas coisas, isso funcionava, mas não para o maldito cursor, que continuava me acusando pacientemente. Vi que não adiantaria ficar pensando numa solução. Forçar a barra só pioraria as coisas. Desliguei o computador e resolvi dar um tempo naquilo. Fui dar uma volta pela rua para arejar as ideias e tentar pensar em outra coisa. Quem sabe quando eu voltasse as minhas ideias fluiriam melhor e eu nem perceberia mais a presença daquele troço.

Chamei o elevador e, enquanto esperava, fiquei olhando a cidade pela janela do corredor. O elevador chegou, eu entrei e fui direto para o térreo. Olhei o marcador dos andares enquanto passavam os números: 6, 5, 4, 3, 2, 1. Quando chegou ao térreo, o marcador apagou e começou a piscar: um cursor. Achei aquilo estranho. A porta se abriu e sai rapidamente. Quando passei pela portaria, fui perguntar ao porteiro se o elevador estava quebrado.

– Amigo, tem algum problema com o elevador?

Ele estava de costas. Virou-se e respondeu.

– Não, senhor, está tudo funcionando perfeitamente.

Quando parou de falar, um cursor começou a piscar no lugar da sua boca.

– Aconteceu alguma coisa, senhor?

Ele falava e o cursor desaparecia; parava de falar, e o cursor voltava a piscar. Será que eu estava ficando louco? Sem lhe responder, abri a porta e fugi para a calçada.

A rua estava muito movimentada, cheia de gente, bicicletas, motos e carros indo de um lado para o outro. Andei a passos rápidos. Eu olhava para as pessoas e via cursores piscarem diante das suas bocas caladas. Algumas conversavam ao telefone, sem cursores enquanto falavam, mas que voltavam a aparecer e piscar enquanto escutavam a pessoa do outro lado da linha. Olhei para o lado e vi um homem sentado numa cadeira enquanto seu sapato era engraxado. Ele lia um jornal e tinha um cursor piscando na boca. O engraxate, sentado num banquinho de madeira, trabalhava calado enquanto sua boca também exibia um cursor frenético. Continuei andando e desviei o olhar para baixo, tentando me desvencilhar daquela maldição que me perseguia. Um passeador de cães passou por mim segurando oito cachorros. Cursores também piscavam diante dos seus focinhos; só os que latiam faziam-nos desaparecer temporariamente. Para onde eu olhava, lá estavam eles; os cursores não paravam de piscar: nos bicos dos pássaros que não cantavam, nas placas dos carros estacionados, nos sinais vermelhos. Tudo que estava parado tinha cursores piscando.

Avistei um homem sentado em posição de lótus numa esteira estendida na calçada. Ele meditava em silêncio e não tinha um cursor diante da boca. Será que ele tinha conseguido se desligar do mundo e não pensar em absolutamente nada? Fui até ele na esperança de me contar o seu segredo. Toquei no seu ombro e ele abriu os olhos. Olhou para mim calado e eu admirei ainda mais o seu autocontrole; parecia que nada o perturbava. Finalmente perguntei: “Como consegue fazer isso?” Ele balançou a cabeça como se não me entendesse, levantou as mãos, começou a gesticular e apontou para os ouvidos fazendo um sinal negativo. Percebi que ele era surdo-mudo, comunicava-se com as mãos, e quando parou de mexê-las, cursores começaram a piscar entre os seus dedos.

Virei-me e comecei a correr. Estavam por todo lado, e eu não conseguia fugir deles. Perdi o fôlego em frente a uma loja e, ofegante, apoiei-me nos joelhos. Depois de uns segundos, levantei-me e olhei o meu reflexo na vitrine. Vi um cursor piscando diante do meu rosto. Com toda a minha força, dei o grito mais alto e longo que consegui: “Aaaaaah!” Cai no chão desacordado.

Quando abri os olhos, muitas pessoas estavam ao meu redor, um policial fazia anotações num bloquinho e outros dois afastavam a multidão. Ao perceber que eu tinha acordado, o policial perguntou:

– O senhor está bem? O que aconteceu?

Eu ainda estava um pouco zonzo, mas consegui ver que já não havia mais nenhum cursor piscando: nem nas bocas das pessoas, nem nos carros parados, nem em nenhum outro lugar. Fiquei tremendamente aliviado. Então respondi:

– Estou bem. Só fiquei um pouco tonto e cai, só isso.
– Precisa de um médico?
– Não, estou bem. Moro perto daqui, já estou indo para casa.

Levantei-me e passei no meio dos curiosos. Olhei para todos os lados e parecia que tudo tinha realmente voltado ao normal. Nenhum cursor piscava em lugar nenhum. Tomei o caminho de casa.

Cheguei ao meu prédio, fui direto até o elevador, e o marcador dos andares mostrava o térreo. Apertei no sexto andar e subi. Quando o elevador parou, o número seis apareceu. Passei pelo corredor e entrei em casa. Tudo estava na mais perfeita ordem.

Sentei-me na cadeira do escritório, aproximei-me da mesa e hesitei um pouco antes de ligar o computador. Criei coragem, levantei a tela e liguei-o. Abaixei a cabeça e fechei os olhos por um momento, enquanto o computador se iniciava. Respirei fundo, ainda de olhos fechados. Finalmente, levantei a cabeça, respirei fundo uma última vez, abri os olhos e lá estava ele: o cursor continuava piscando!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O misantropo

A barata

Na sorveteria