O misantropo

– Mãe, descobri o que sou! – disse o menino de 12 anos, só com a cabeça para fora da porta do quarto, com um grito no corredor.

A mãe coruja parou tudo que estava fazendo e foi ver o que o filho queria, já cheia de coisas na cachola. Algumas hipóteses cruzaram a sua mente preocupada: “Será que vai sair do armário?”, “Será que desta vez se autodiagnosticou como autista?”, “Estará falando de alguma profissão que quer exercer no futuro?”. 

– Oi, meu amor! Me chamou?

– Mãe, eu sou misantropo! – disse ele, confiante.

– Como assim, meu filho? – perguntou ela, tentando esconder que não sabia ao certo o significado daquela palavra.

– É isso mesmo, mãe. Mas não se preocupe, está tudo bem comigo. Eu não me incomodo com isso. Pra falar a verdade, até gosto de ser assim.

– Tá bom, meu amor. Vai ficar tudo bem, então. Se quiser conversar mais sobre o assunto, sabe que pode sempre contar comigo – concluiu a mãe, já apressada para ir em busca de um dicionário.

O menino fechou a porta do quarto e voltou ao seu mundinho. A mulher, ainda atordoada pela notícia, mesmo sem saber do que se tratava, pegou o celular e pesquisou a misteriosa palavra na internet. Misantropo: aquele que tem aversão às pessoas, à sociedade dos homens, que se aborrece com a companhia humana.

“Mas não pode ser! Ele é uma criança tão doce, tão inteligente, tão carismática.” A cabeça das mães funciona de uma forma tão diferente que nem Freud explica. Cegada pela maternidade, a mulher custava a acreditar que o filho odiasse gente. “Será que isso tinha cura?”

Começou a inventar explicações mirabolantes consigo mesma para se convencer de que o filho estava enganado. A mulher tinha se separado do marido quando o filho ainda era bem pequeno. Alguns anos depois, casou-se novamente com outro homem, com quem teve um segundo filho. Cada um desses eventos, na cabeça dela, poderia ter desencadeado reorganizações nas estruturas cerebrais do primogênito para que se tornasse o tal misantropo. Sentiu-se culpada, apesar de tudo aquilo serem apenas elocubrações passageiras sem aval clínico especializado. Ela estava fazendo o melhor que podia para entender a nova realidade que se apresentava no seio familiar.

Durante a adolescência, a mulher observou com mais afinco os comportamentos do filho amado. Ele nunca trazia amigos para casa e, por sua vez, nem ia à casa deles. Nunca falava de garotas; parecia que nenhuma lhe interessava. Normalmente não participava de excursões da escola, e nas raras ocasiões que ia, pedia que a mãe o levasse de carro, só para não ter que se sentar ao lado de ninguém no ônibus escolar. Sua vida se resumia, em grande parte, a ficar recluso no quarto, como uma espécie de eremita doméstico, jogando videogame ou estudando. Era bastante dedicado e focado em suas atividades, contanto que fossem solitárias. Apesar de tudo, ele não era desprovido de sentimentos, e até sorria nas fotos.

A mãe, relutante, ainda tentou por um tempo tirá-lo daquela aversão ao outro. Chamou-o incontáveis domingos para ir à igreja com ela, mas não teve reza que desse jeito; o menino não comungou com a ideia divina. Outro plano foi oferecer-lhe um cachorrinho, quando passaram em frente a um pet shop. Quem sabe um bicho lhe agradasse. Também não deu certo. Pelo visto, a misantropia do menino abrangia adicionalmente os reinos celestial e animal.

A gota d’água para a mãe cair na real e finalmente aceitar a repulsa antissocial do filho foi quando, certo dia, revirando umas gavetas antigas em busca de fotos de família, encontrou um amontoado de convites de aniversários infantis. Todos intactos. Ela percebeu, naquele instante, que o filho os tinha escondido ali meticulosamente por anos a fio, para nunca ir às festas desde pequenininho. O caso era mesmo mais sério e antigo do que ela imaginava. Quantas interações sociais o menino conseguiu evitar? Quantas brincadeiras deixou de brincar? Quantos amigos deixou de fazer?

A mãe não conseguia se esquivar de fazer comparações com o outro filho, o caçula. Este era extrovertido, cheio de amizades e namoradas. Ia a festas e chegava tarde em casa, e por vezes na manhã seguinte. Viajava com a turma e passava o fim de semana fora. Recebia telefonemas de mil paqueras. Abraçava todo mundo. Até tentava arrastar o irmão mais velho para alguma atividade social, mas sempre fracassava. Como podiam ser tão diferentes? Bem, pelo menos os pais eram diferentes. Talvez fosse culpa exclusiva deles, da genética deles, afinal, era a única variável divergente na equação.

Aos poucos, a mãe começou a aceitar o fardo psicológico que a situação lhe trazia. Mas via o filho tranquilo, levando a vida que pediu a Deus: sem ninguém.

Entrando na vida adulta, ele fez faculdade de computação, exatamente para poder trabalhar com máquinas insensíveis e alheias aos seus desejos. Quanto menos humanos ao seu lado, melhor. Ele se formou com louvor, conseguiu um trabalho remoto e montou o próprio escritório naquele que sempre foi o seu mais perfeito lar: o seu quarto.

A mulher sempre quis ter netos, mas já tinha perdido as esperanças de realizar este sonho com o filho mais velho. De vez em quando, ela ainda se lembrava de uma garota da vizinhança, a única em toda a vida do filho em quem ele tinha demonstrado um tímido vislumbre de interesse amoroso, no entanto, os dois jovens se comunicavam mais por mensagens de internet. E depois a menina foi ser modelo no Japão, arranjou um namorado por lá e foi se afastando. O filho confessou que não se importava e que queria que ela fosse feliz. Ao que tudo indicava, aquele moço iria mesmo ser um celibatário para toda a vida.

– Filho, o almoço está pronto! Você vem comer com a gente? – perguntou ela através da porta fechada.

– Tô ocupado, mãe! – respondeu ele.

– O teu prato tá aqui.

Ele abriu a porta, agradeceu brevemente e pegou o prato. Então fechou a porta atrás de si, aliviado.

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