Ao mar
Puxei a leve cortina do quarto da pousada à
beira-mar, para que os primeiros raios de sol, quando chegassem, não
perturbassem o teu sono, meu bem. Deitei-me na rede da varanda e continuei a
leitura do livro de contos que tinha comprado no dia anterior. Uma pequena
lagartixa matutina subiu na tora de madeira que apoiava o único andar de cima e
tentou se camuflar em meio à cobertura vegetal. Depois de uns dois capítulos,
senti fome, mas ainda faltavam mais de vinte minutos para o café ser servido.
Resolvi caminhar pela praia.
Avançando descalço em direção ao mar, senti a areia branca e
fina castigar as minhas canelas, trazida por rajadas contínuas de vento
litorâneo. Mais à frente, o sargaço deixado pelo recuo da maré começou a
invadir os espaços entre os meus dedos dos pés, enquanto eu pisava
despreocupado por cima dele. O sol já mostrava o seu vigor, atingindo em cheio
as minhas costas desprotegidas. Um pequeno siri cruzou o meu caminho assustado,
correndo de lado e sumindo num buraquinho.
Naquele
momento, via-se pouca gente na paisagem, além de alguns vira-latas. A presença
humana e não humana apenas começava a despontar naquela manhã. Alguns
jangadeiros, recém atracados, puxavam as redes de pesca, esperançosos pela
recompensa daquela noite de trabalho. Na areia, emaranhados entre os nós da
malha fina, debatiam-se exércitos de monstros marinhos em miniatura. Os homens
coletavam os que queriam para a própria subsistência e descartavam os restos
sem peso na consciência.
Vi o cabôco de
longe, sem camisa, arrastando uma boia redonda. Levantou o braço para me
cumprimentar. Sorri e acenei de volta. Ele continuou com passo firme, sonhando
acordado.
O mar estava
calmo, como sempre foi naquele trecho, escondendo dentro de si uma abundância
de vida rumorosa por baixo do silêncio da superfície. Quis dar um mergulho,
afinal, água salgada, alma lavada. Tirei a bermuda e entrei na água só de
cueca, sem nenhuma opinião contrária para me impedir.
Caminhei pelo
raso, paradoxalmente aproximando-me do horizonte. A areia molhada embaixo de
mim mudava de aspecto a cada passo, tornando-se ao mesmo tempo barrenta e
agradável. Antes que ficasse irremediavelmente fundo, enfiei as mãos na água e
alcancei o solo subaquático. Fechei os punhos e senti a maciez daquela amálgama
de elementos misturados. E me senti unido a tudo ao meu redor. Não havia
fronteiras entre mim e qualquer outra coisa.
À medida que
me distanciava da faixa de areia lá atrás, meu corpo se entrelaçava cada vez
mais com aquele ambiente fluido que me acolhia com benevolência. Em certa
altura, comecei a sentir o sabor salgado das gotas que respingavam na minha
boca. Involuntariamente, bebi um pouco daquele maná.
Desprendi meus
pés do fundo movediço e comecei a boiar, deixando a vontade da maré me levar
para onde quisesse. Fiquei olhando as nuvens no céu e os desenhos que se formavam
por todos os lados da abóbada. Virei o rosto de lado e vi as modernas pás eólicas girando e gerando. O contraste entre tecnologia e natureza me despertou
daquele transe flutuante.
Coloquei os
pés no chão novamente e comecei a retornar, vencendo lentamente a resistência
da água, que parecia não querer me deixar ir embora. Ao finalmente sair da
água, senti o peso da gravidade de todo um planeta que me puxava para junto de
si. Peguei a bermuda e a vesti. O sol me ajudou a me secar no meu percurso de
volta à civilização.
As mesas do café já estavam postas e alguns hóspedes se nutriam com frutas, pães e bolos. Duas crianças brincavam na areia perto da saia da mãe. O garçom reabastecia os itens que começavam a faltar.
Entrei com cuidado no quarto, ainda envolto numa penumbra aconchegante. Você ainda dormia, meu bem. Sentei-me ao teu lado na cama e velei o teu sono sem pressa, te esperando acordar.
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